Toda a gente te mostra as galinhas a correr pelo quintal ao
sol, o cesto de ovos mornos, o cenário perfeito. Ninguém te mostra o resto. E o
resto é o que decide se isto é para ti ou não.
Vou contar-te as sete coisas que eu gostava de saber antes.
Sem dramatizar, sem romantizar.
Porque decidimos ter galinhas
A verdade é que decidimos ter galinhas pelos ovos. Tínhamos
tanto espaço e os vizinhos estavam sempre a dizer que era uma parvoíce não
termos galinhas.
Gostamos muito de animais, mas somos da cidade. Não fazia
ideia do que era, na prática, viver com galinhas. E, para ser sincera, quando
chegaram, tinha medo de me aproximar delas. Se começavam a vir na minha
direção, eu fugia.
Os ovos foram o motivo para começar; o resto fomos
descobrindo com elas.
1. O galinheiro pode custar mais do que imaginas
Quando pensas em galinhas, pensas nelas e nos ovos. Não
pensas na estrutura.
No nosso caso, aproveitámos paletes, rede e coberturas para
construir o galinheiro. A cerca também já estava feita por causa das cabras,
mas há que ter isso em conta. Aqui precisávamos mesmo para os cães não chegarem
às galinhas e, com o tempo, é preciso ir fazendo manutenções.
Para os ninhos, usamos cestos de plástico reaproveitados,
daqueles que se encontram nos mercados e nas frutarias. Como são abertos,
permitem a circulação do ar — muito importante para ajudar a evitar parasitas e
doenças.
Podes fazer muita coisa com material reaproveitado — e nós
fizemos — mas mesmo assim há sempre compras que não consegues evitar.
E há uma coisa que ninguém menciona: o galinheiro não é
uma compra, é uma obra em permanente atualização. Passado um mês percebes
que a porta devia abrir para o outro lado. Passado dois, que falta sombra.
Passado três, que a rede tem de subir mais.
Se estiveres a planear isto, faz o galinheiro maior do que
precisas. Vais agradecer.
2. Elas comem tudo o que não devem
É verdade que dá jeito poder aproveitar alguns restos de
comida adequados para elas. Mas isso não significa que possam comer tudo e
também não é a razão principal para as termos.
Aqui, apesar de terem espaço para procurar alimento, é
importante reforçar a alimentação com comida adequada para galinhas. Cá em casa
também damos milho: um saco de 30 kg custa menos de 10 € e dura-nos meses. Por
vezes, reforçamos ainda com vitaminas.
Mas elas também comem as folhas da horta que acabaste de
plantar, flores e até o rebento tenro daquela árvore que demorou três anos a
pegar.
Aprendi a separar os espaços onde podem e não podem ir. Não
é opcional.
E há o outro lado: há coisas que não podem comer de
todo, e algumas são surpreendentes, como abacate, chocolate, feijão cru ou
seco, batatas verdes… Também é melhor evitar restos muito salgados ou muito
processados.
3. A rotina não tem folgas
Chove? Abres a porta e vais ver se estão bem. Estás doente?
Alguém tem de ir. Vais passar o fim de semana fora? Pedes sempre a alguém que
vá ver se elas estão bem… As nossas têm um espaço grande onde podem procurar e
comer algumas das coisas de que gostam, o que nos dá alguma tranquilidade.
Mesmo assim, quando estamos fora, pedimos a alguém que vá confirmar se estão
bem. Também instalámos um bebedouro automático, é super barato e não precisamos
estar sempre preocupados se têm água limpa e fresca.
Não é trabalho pesado mas é preciso confirmar todos os dias
que está tudo bem, e isso é diferente de "às vezes".
É a parte que mais surpreende quem vem de fora. As pessoas
imaginam a liberdade de ter animais no quintal e esquecem-se de que os animais
não sabem que é domingo.
4. Há uma hierarquia, e não é simpática
As galinhas não são todas amigas. Têm uma ordem social muito
clara, e ela é estabelecida à base de bicadas.
Quando introduzes uma galinha nova, os primeiros dias são
duros de ver. As outras vão persegui-la, tirá-la do comedouro, empurrá-la para
longe. É normal, é assim que funciona, mas não é bonito.
Há formas de facilitar a integração — espaço, esconderijos,
mais do que um ponto de comida e água. Mas ninguém te avisa que vais passar uma
semana a olhar para o quintal com o coração apertado.
5. Os ovos não são uma máquina
Isto foi a maior desilusão, e ao mesmo tempo a maior lição.
As galinhas não põem ao mesmo ritmo todo o ano. A produção
depende da luz, do frio, da muda da pena, da idade, da alimentação. Há fases em
que tens ovos a mais e andas a oferecê-los; há fases em que não tens nenhum, é
raro mas acontece.
Mesmo com várias galinhas, pode haver períodos de menor
produção. Se contares com os ovos como um extra, em vez de esperares uma
produção constante, vais ser muito mais feliz — e elas também.
6. Os vizinhos e as regras contam
Vivemos numa aldeia, e não temos problemas com isso.
Galinhas fazem barulho, não tanto como os galos, mas podem
fazer. Fazem cheiro e se o galinheiro não for limpo com regularidade podem
surgir cheiros e outros problemas de higiene. É um aspeto importante a
prevenir, tanto pelo bem-estar das galinhas como pela boa convivência.
Antes de começares, confirma as regras do teu concelho e
fala com os vizinhos, para que saibam o que esperar e se evitem mal-entendidos.
Todos queremos boa vizinhança… mas nada que uns ovinhos oferecidos de vez em
quando não resolvam 😊.
7. Vais perder galinhas, e isso custa
Este é o ponto que ninguém põe nos posts bonitos.
Há poucos dias perdemos as duas galinhas mais adoradas cá de
casa: a Pata e a Amália. Dormiam no nosso colo. Davam as boas-vindas aos amigos
que vinham cá a casa. Eram capazes de convencer qualquer pessoa de que as
galinhas são um máximo — inteligentes, dóceis, amigas.
E o pior não foi só perdê-las. Foi ter de dar a notícia às
crianças.
Elas brincavam com a Pata e com a Amália, iam pegá-las e
dar-lhes mimos todos os dias, sem falhar um. Ver o nosso pequeno a chorar, e
depois acordar de noite a sofrer com aquilo, foi de cortar o coração.
Aprendi uma coisa que não esperava: uma galinha é um animal
de estimação. Por muito que alguém me tivesse dito antes, eu nunca imaginaria.
Há predadores. Há doenças. Há galinhas que simplesmente
amanhecem mal e não recuperam. E, por muito que te prepares, a primeira vez
custa mais do que esperavas — sobretudo quando já lhes deste nome.
A única coisa que podes fazer é reduzir o risco: galinheiro
fechado ao anoitecer, rede em condições, chão sem buracos, água limpa,
observação diária. Não elimina o problema. Diminui-o.
Não te conto isto para te assustar. Conto porque faz parte,
e porque ninguém me avisou que me ia afeiçoar a elas.
O que precisas mesmo para começar
Não precisas de muito, mas precisas disto:
- Abrigo
fechado para a noite, com porta que feche bem
- Poleiro
— elas dormem empoleiradas, não no chão
- Ninhos
com palha ou aparas, num canto resguardado
- Comedouro
e bebedouro que não se sujem em dois minutos
- Rede
ou vedação em altura suficiente para as manter protegidas
- Sombra
e abrigo do vento e chuva durante o dia
E um conselho que vale mais do que a lista: começa com poucas.
Duas ou três. Aprende a rotina, percebe o espaço, e só depois cresce. É muito
mais fácil aumentar do que corrigir um galinheiro mal pensado com doze galinhas
dentro.
Começa com o básico, seguro e funcional. Depois, com elas lá
dentro, percebes o que falta — e vais ajustando com o tempo.
Um galinheiro perfeito que nunca se começa não serve de
nada. Um galinheiro simples que funciona serve muito.
Então, vale a pena?
Vale — mas não pelos motivos que te vendem.
Vale pelo barulho do quintal de manhã. Por ir buscar ovos e
ainda estarem quentes. Por ver uma galinha que estava assustada, três semanas
depois, a comer da tua mão. Por aquele momento em que percebes que já sabes
quem é quem, e que elas também já sabem quem tu és.
Não vale se estiveres à procura de poupança, de
independência alimentar total ou de um cenário bonito que se mantém sozinho.
Nada disso é verdade.
Se estás a pensar começar, diz-me em que ponto estás — se
ainda estás a decidir, se já tens galinheiro feito, ou se já tens galinhas e
estás a passar por alguma destas sete. Gosto sempre de saber como corre do
outro lado.



